[Resenha] O Gigante Enterrado

A primeira resenha sobre os livros de 2018 é de O Gigante Enterrado.

Esse livro foi folheado um pouco no ano passado, mas engatei a leitura no início desse ano e terminei em Fevereiro. Entretanto, a resenha demorou mais do que deveria, e sai só agora em Abril.

O motivo?

Excetuando a questão do tempo cada vez mais escasso para me dedicar ao Drunkwookie, acredito que O Gigante Enterrado foi o livro mais difícil de ser resenhado.

Esse livro que me tocou de forma tão complexa e profunda, trouxe bastante dificuldade na hora de falar sobre ele.

1. O Gigante Enterrado

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Autor – Kazuo Ishiguro

Sinopse – Uma terra marcada por guerras recentes e amaldiçoada por uma misteriosa névoa do esquecimento. Uma população desnorteada diante de ameaças múltiplas.

Um casal que parte numa jornada em busca do filho e no caminho terá seu amor posto à prova – será nosso sentimento forte o bastante quando já não há reminiscências da história que nos une?

Épico arturiano, o primeiro romance de Kazuo Ishiguro em uma década envereda pela fantasia e se aproxima do universo de George R. R. Martin e Tolkien, comprovando a capacidade do autor de se reinventar a cada obra.

__________

Foi um prazer esbarrar nessa obra numa livraria. Geralmente não compro um livro pela capa. Capas duras maravilhosas com relevo, impressões em dourado ou dezenas de bugigangas impressas em papel cartão para acompanhar uma história, não me fazem levar um livro.

A Darkside deve me odiar por dizer isso…

Porém, confesso que a capa de O Gigante Enterrado tem quase todas essas qualidades que não me tocam mas de alguma forma me interessei pela sinopse.

E quando isso acontece em uma livraria você se vê obrigado a ouvir a intuição e levá-lo. Porém, esse ímpeto consumista tem seu preço. Livrarias sempre vendem seus livro mais caros do que nos sites.

Mas valeu a pena pagar o preço.

O livro veio em boa hora, pois sinto-me cansado de ler Fantasia.

Chega um certo momento em que você entra em um círculo vicioso, na roda do samsara literária, onde tudo parece mais do mesmo, como uma grande repetição de temas.

Acredito que tenha sido esse cansaço referente ao tema que não me fez gostar da segunda trilogia de Mistborn.

Sei que Mistborn (Segunda Era) não é só isso que irei descrever, pois Brandon Sanderson é um autor genial.

Porém, foi apenas isso que me saltou aos olhos. A Alomancia passou longe de chamar minha atenção dessa vez.

Cara rico que renega suas origens, resolve passar a vida sendo um caçador de bandidos, entretanto é chamado para cuidar dos negócios da família e assim se vê dividido entre uma vida na corte e fugas pela janela para combater o crime escondido.

Essa fórmula vem me cansando, cada vez mais. Porém, a paixão por livros nunca cessou, então resolvi voltar meu olhar a livros que fogem dessa métrica, ao menos por enquanto.

Mas voltando a O Gigante Enterrado

Compro o livro, folheio e qual é a minha surpresa ao descobrir que o livro se passa na Grã-Bretanha, talvez no século 5 ou 6, pouco depois da morte do Rei Artur?

Tudo bem. Penso eu. Vamos de Fantasia uma vez mais.

Por sorte o livro foge da fantasia assim como eu venho fugindo.

A escrita de Kazuo Ishiguro é primorosa.

Longos parágrafos buscando trazer ao leitor as cores, os cheiros e os toques de todo cenário que resolve inserir em sua trama. Passar uma noite lendo o trabalho de Ishiguro é algo indescritível.

Nossos Protagonistas

Por Roman Muradov

Seguimos os protagonistas Axl e Beatrice, um casal de idosos que resolvem deixar sua aldeia e procurar seu filho, que nunca mais veio visitá-los.

A viagem por si só seria perigosa para um casal em tão avançada idade, porém há outro problema. Brumas envolvem o mundo, causando esquecimento em todos habitantes.

As memórias dos habitantes da Bretanha escorregam e fluem para longe, enquanto a névoa preenche seu espaço na lembrança de cada um.

Mesmo assim o casal decide levar a cabo sua decisão e vão de encontro ao filho, mesmo sem se lembrar onde fica a vila em que o filho havia feito morada.

A bem da verdade nem do rosto do filho ambos se lembravam.

Os dois decidem seguir um rumo que acreditam ser o correto e se colocam na estrada.

Só esse início já te faz refletir sobre nossas buscas, nossas jornadas, nossas escolhas. A trama desenvolve-se vagarosamente, como as brumas se espalhando pelo solo da Bretanha.

Seguimos, de maneira letárgica, nossos protagonistas conhecendo aos poucos o estranho mundo em que vivem.

Sempre preocupados com as lembranças que desvanecem, um das frases dos nossos protagonistas é  muito impactante.

As lembranças

Por Robert Frank Hunter

“Eu me pergunto se, sem as nossas lembranças, o nosso amor não está condenado a murchar e morrer.” 

O casal teme pelas memórias que somem, dia após dia.

Por isso, o leitor vai tentando montar o quebra-cabeça do passado de Beatrice e Axl, apanhando cada pequeno pedaço de lembrança que eles deixam escapar ao conversarem.

Ishiguro em sua obra, aborda o significado e importância da lembrança individual e da lembrança coletiva de tal forma, que paramos de nos preocupar com o futuro da trama e passamos a nos preocupar com o passado.

Dificilmente um livro me fez refletir tanto quanto O Gigante Enterrado. O passado, o presente ou o futuro é importante?

Personagens pelo Caminho

A história não foca-se apenas no casal de idosos.  Ela se expande, se esparrama assim como as brumas, nos trazendo outros personagens que também tem problemas em lembrar-se do passado, mas nunca deixam de agarrar-se ao presente, sempre buscando realizar aquilo que devem.

Nossos protagonistas passam a atuar em uma historia maior do que eles, que fará diferença para todos na Bretanha, mas não fazem ideia disso.

Todas as pontas são amarradas de forma magistral por Ishiguro.

Por toda história encontramos as mais diversas pessoas. Cavaleiros andantes, antigos homens que conheceram Artur em seus dias de glória, bruxas, soldados, padres e até mesmo uma dragoa.

Percebemos a existência de saxões magoados e bretões desconfiados com os resultados da guerra. Mas nenhum deles lembram realmente o motivo da mágoa ou da desconfiança.

A névoa deixa tudo obscurecido. Ninguém se lembra das guerras do passado e talvez nem se lembrem que é saxão e quem é bretão. Passamos então a perceber os benefícios do esquecimento.

Velhas rixas enterradas. Velhas disputas adormecidas…

Por Carrie May

Não quero revelar muito da trama em si, pois descobrir o que causa a névoa e o porquê dela existir é um dos pontos altos do livro.

Entretanto, o ponto alto é mesmo a reflexão que esse livro te traz.

O medo do casal em esquecer o motivo pelo qual se amaram um dia, é palpável. Esse medo os afasta do presente.

O leitor fica apreensivo e em determinado momento torce para que as lembranças de Axl e Beatrice voltem o mais rápido possível, ou que ao menos que não esqueçam o respeito e amor reverencial que ainda mantém entre eles.

No decorrer da história você percebe que pode haver um problema nessas lembranças e se pergunta: Mas e se no passado há lembranças tristes que podem acabar com o amor que o que resta entre eles?

Lembrar do passado é realmente necessário?

O cenário do livro é um cenário pós-guerra. Se a névoa deixasse de existir, os homens lembrariam dos terrores da guerra, e lembraria que seus vizinhos foram seus inimigos?

É complicado.

O livro traz centenas de metáforas e te atingem em cheio.

O amor se desgasta com o tempo ou o tempo que passou pode desgastar o amor?

Acredito que cada leitor fará uma leitura e uma reflexão diferente, de acordo com suas experiências de vida e com seus níveis de autoconhecimento. É um livro lindo, complexo, profundo.

E não é a toa que Ishiguro ganhou o prêmio Nobel da Literatura com essa obra.

Para a história, o Gigante Enterrado não deveria ser trazido à tona. Mas para nós, acredito que o passado seja muito importante, por mais que não exista mais.

Pilares de nossa existência foram erigidos no passado e nos mantém firmes até hoje. Acredito que revisitar o passado apenas por nostalgia possa ser cruel. As névoas agem como um bálsamo, tomando o lugar de tais lembranças.

Entretanto, as névoas precisam se dissipar em algum momento.

O final… e a conclusão.

Por Jason Crowley

O final de Axl e Beatrice é um dos mais belos e emotivos que tive o prazer de vivenciar em uma obra literária. As memórias (ou a falta delas) foram definitivas para demonstrar o amor que existe entre os dois, independente do resultado final.

As referências do barqueiro, da Ilha, da dragoa e da névoa, de Wistan, o saxão e de Sir Gawain, e até mesmo do Edwin, o garoto mordido pelo troll.

Tudo isso conversa com você, de forma diferente para cada leitor, acredito.

A viagem fez nossos protagonistas mudarem de ideia. Lembram daquela citação inicial?

Ao final, percebemos que seus medos e anseios se transformam..

“Se as nossas lembranças voltarem e, entre elas, a de momentos em que te desapontei, ou de atos condenáveis que eu um dia possa ter cometido e que a façam olhar para mim e não enxergar mais o homem que você está vendo agora, me prometa uma coisa pelo menos: prometa, princesa, que não vai esquecer o que sente por mim no fundo do seu coração neste momento. Pois de que adianta uma lembrança voltar da névoa se for para apagar outra? Você me promete isso, princesa? Promete que vai guardar para sempre no seu coração o que está sentindo por mim agora, não importa o que você veja quando a névoa passar?” O Gigante Enterrado.

Axl mudou entre o início e o final de sua jornada. Acredito que qualquer um que ler esse livro, também mudará. um pouquinho talvez, mas mudará.

1 Comentário

  1. Wagner Ganaghar Wagner Ganaghar
    20 de Abril de 2018    

    Interessante pensar no assunto. Mas não cheguei a ficar com vontade de ler.

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